quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Segunda Tarde Clara

Bem depois do purê de macaxeira,
quando ainda festejar nos lábios 
o doce de abacaxi com coco,
evoque as memórias mais longínquas das fotos 
e terás uma tarde clara como essa...

Mas quando o relógio gritar estridente
que a hora do mundo te perde, 
abandone os devaneios lúcidos 
e ponha de lado o beijo macio que te impede
de deixar esse sonho doce
e fique nu 
com a rotina que te persegue.


Se esqueça da morte,
                                esse despertador engraçado, 
                                                                           mas não, 
se lembre dela, 
                        se lembre!


Diga adeus solenemente 
aos consolos que a religião de oferece 
e aceita o verme que já em teu corpo ferve.
Mas se esqueça da morte, 
se esqueça
e volte às fotos 
que dão dimensão à tua vida.

Tenha esta foto bem perto 
como o abraço da moça doce, 
assim a vida já é essa memória 
que te escapa suavemente pelas mãos.

E, finalmente, 
com o ar puro da existência em tua pele, 
ponha tudo de lado, 
olhe para o relógio, 
veja o trabalho ainda por fazer 
                                                    e
                                                       então
                                                                comece.




 









quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Confissões póstumas

Sempre tive medo da morte em vida
E a sede por eternidade
Fez com que os dias ensolarados me devorassem
Deixando apenas versos cheios de calor.

Nunca me prestei ao papel intelectual,
Daquele que sofre com a vaidade do reconhecimento.
Certamente me entreguei ao corpo
E não tive vergonha da minha parte animal.
Mas sempre detestei os tolos
Com suas rotinas medíocres e seus desejos simplórios por luzes que preencham a falta de sentido e o vazio de suas vidas.

Vi os macacos e suas máquinas histéricas
Cruzando a avenida apressados.
Da montanha tive pressentimentos de grandeza
e julguei compreender os homens na sua miséria e fraqueza.
A máquina do mundo me mostrou o tempo
E vi nela toda destruição humana,
Tomei partido dos deuses
E torci pelo fim.

Mas lá em cima era frio
E por isso constantemente refugiei-me nas praças e nos bares.
Fumava meu cigarro com calma,
Saboreando a mágica improbabilidade da existência.

Raras vezes o esplendor da arte
Sacudiu-me das meditações distraídas do andar olhando para baixo,
E percebi o quanto era maravilhoso o brilho do sol na copa das árvores.

Andando à noite chocou-me a miséria, servindo-se do lixo dos abastados.
Ensaiei revoluções sublimes, mas nada mudou,
Ao ponto em que a fome e o assalto à dignidade viraram o pano de fundo do quadro.

No final quase nada me restou
A não ser os amigos com quem dividi o ar
E a enorme paixão que tive pelos versos.

As tardes ensolaradas que me passaram
Roubei em tinta e papel.
Sou agora o mineral da linha
Que corre com o vento sem se machucar.
Os diálogos solitários que travei
Deixou-os ai como herança.

Venha cá, sente-se, vamos tomar uma cerveja gelada!

Sempre que quiser estarei nessa mesa
Aberto como um livro
Falando de coisa como essas.
Falando do tempo,
Como está lindo esse céu azul de hoje!

Uma terça feira irresponsável

Hoje tive uma tarde clara,
parecia até um domingo eu deitado em volta do lago na sombra de um árvore.
Mas era terça.

Uma menina sorria e se divertia comigo deitada olhando pela janela.
E ainda falávamos abertamente do fim...
É que ela vai embora depois do Carnaval.
Mas depois do Carnaval é tudo cinza mesmo,
como a quarta-feira em que escrevo essas linhas.

Pelas nossas bocas somente poemas, canções, esperanças
E no nosso corpo somente o desejo de ficar junto.

Por isso que é “eterno enquanto dure”, como em Vinicius.
É como “entrar no acaso e amar o transitório”, de Pena Filho.
É “povoar essa ausência chamada solidão”, como Saramago.

Uma menina linda e doce
fez ficar mais bonita a tarde clara.