Que inveja dos que dormem
Dos que dormem facilmente
Boquiabertos
No avião que voa a 500 quilometros por hora
Atravessando nuvens e ventos
Passando por oceanos e montanhas
Várias cidades de gente.
À noite as luzes da cidade
Brilham nas casas
De várias cores
Pulsam
Milhões de televisões ligadas.
E carros passando
Como células
Numa veia de sangue
Como rio que não é.
Que pode ser o indivíduo
Diante desse monstro humano?
Como pode ser racional?
E se, a mão invisível falhar?
Que inveja dos que dormem
E dirigem seu carro
E leem seu
romance
best seller
do new york times.
E assistem televisão
E estão no seu smathphone
Ou no seu tablet
Ou no seu kindle
Ou no raio que o parta
E não tem a consciência
Ou ignoram
Preferem não pensar nisso
Se lambuzam num McDonald´s
Batatas fritas
E coca-cola.
Ou outros como eu
Contraditórios
Queimam-se no vinho
No café
E outros vícios.
Mas outro dia
Anunciou no jornal
Que a ONU e seus cientistas
reconhecem o aquecimento global
Que as emissões estão aumentando
E as consequências serão dramáticas
Para a metade da humanidade
Que como Recife
Vive a beira do mar.
A natureza responderá com fúria
Pois ela é viva afinal.
E há um câncer queimando
Dilacerando
Substituindo complexidade
Por latifúndio
Plantas e peixes
Geneticamente modificados.
E dentro dessa jaula
Encontra-se também a ciência política
As ciências sociais.
Que fazem os cientistas do espírito?
Ganham tenure
Publicam artigos
Dão palestras.
Compram carros e casa
Viajam de avião...
Será que eles também
Se sentem esmagados e presos
Numa jaula surreal
Beirando a catástrofe?
Ou seguem
Pequenos burgueses
Sugando as migalhas do Estado
Ou o dinheiros de outros
Só mais uma maquina que se reproduz no sistema?
Uma corporação
Uma burocracia.
Racional
Maximizadora...
II
Do alto do Monserrate
Derrama-se a cidade de Bogotá
Num vale extenso de prédios
De gente
De carros e bicicletas
E esses outros humanos
Que falam espanhol
Que não entendem minha língua.
Mulheres lindas em cada esquina
Em la Candelaria
Vestidas de jeans apertados
Botas
Casacos
E maquiagem.
Com seus longos cabelos negros
Balançando com o caminhar
Pelos paralelepípedos
Nesse canto do mundo.
E os politicólogos seguem com suas discussões
Suas distinções
Vaidades
E interesses científicos.
E se reconhecem
Se criticam
Discutem até.
E há progressistas
E pessoas inteligentes
E bem intencionadas
Mas depois dançamos salsa
E tomamos vinho
E a burguesia de Bogotá se lambuza
E se embriaga numa boate de cinco andares
Chamada Carne de Vaca.
E as carnes de fato são todas muito lindas
Elegantes
Bailamos
Enquanto na noite fria
Esgueiram-se em plantações de cocaína
Guerrilheiros e camponeses
Paramilitares
Índios e negros.
Que pensar da democracia liberal e representativa diante
disso?
Robinson sugere que seja um Estado fraco
O problema da Colômbia
Causado por um movimentos político
Que se desenrolou
Naquilo que hoje é história.
E o auditório bate palmas
Diante do acadêmico
Muito inteligente e sensível
And very entertaining.
...
Depois de 18 horas
Entre aeroporto e avião
Hostel de estudantes
Banheiros coletivos
Degusto os prazeres simples da vida:
Cagar no seu bandeiro limpo e só
Tomar uma ducha quente e forte
Dormir na minha cama.
Não comer a porcaria que se oferece pelo menor preço.
Fumar o meu cigarro em paz.
Bogotá es una ciudad muy guapa
E também são suas mulheres
Tenho pensado que vou para a Colômbia
Não para pegar cocaína
Mas para pegar minha mulher
E dançar uma salsa
Enquanto o mundo se queima
Entre bombas atomicas
E químicas
Entre agrotóxicos
E salmão geneticamente modificado
Entre tempestades
Caindo
Dançando
Suando
Trepando
Morrendo.