domingo, 29 de setembro de 2013

Inveja dos que dormem no avião ou impressões de Bogotá

Que inveja dos que dormem
Dos que dormem facilmente
Boquiabertos
No avião que voa a 500 quilometros por hora
Atravessando nuvens e ventos
Passando por oceanos e montanhas
Várias cidades de gente.

À noite as luzes da cidade
Brilham nas casas
De várias cores
Pulsam
Milhões de televisões ligadas.
E carros passando
Como células
Numa veia de sangue
Como rio que não é.

Que pode ser o indivíduo
Diante desse monstro humano?
Como pode ser racional?
E se, a mão invisível falhar?

Que inveja dos que dormem
E dirigem seu carro
E leem seu romance
best seller do new york times.
E assistem televisão
E estão no seu smathphone
Ou no seu tablet
Ou no seu kindle
Ou no raio que o parta
E não tem a consciência
Ou ignoram
Preferem não pensar nisso
Se lambuzam num McDonald´s
Batatas fritas
E coca-cola.

Ou outros como eu
Contraditórios
Queimam-se no vinho
No café
E outros vícios.

Mas outro dia
Anunciou no jornal
Que a ONU e seus cientistas
reconhecem o aquecimento global
Que as emissões estão aumentando
E as consequências serão dramáticas
Para a metade da humanidade
Que como Recife
Vive a beira do mar.

A natureza responderá com fúria
Pois ela é viva afinal.
E há um câncer queimando
Dilacerando
Substituindo complexidade
Por latifúndio
Plantas e peixes
Geneticamente modificados.

E dentro dessa jaula
Encontra-se também a ciência política
As ciências sociais.

Que fazem os cientistas do espírito?

Ganham tenure
Publicam artigos
Dão palestras.
Compram carros e casa
Viajam de avião...

Será que eles também
Se sentem esmagados e presos
Numa jaula surreal
Beirando a catástrofe?

Ou seguem
Pequenos burgueses
Sugando as migalhas do Estado
Ou o dinheiros de outros
Só mais uma maquina que se reproduz no sistema?

Uma corporação
Uma burocracia.
Racional
Maximizadora...


II

Do alto do Monserrate
Derrama-se a cidade de Bogotá
Num vale extenso de prédios
De gente
De carros e bicicletas
E esses outros humanos
Que falam espanhol
Que não entendem minha língua.

Mulheres lindas em cada esquina
Em la Candelaria
Vestidas de jeans apertados
Botas
Casacos
E maquiagem.
Com seus longos cabelos negros
Balançando com o caminhar
Pelos paralelepípedos
Nesse canto do mundo.

E os politicólogos seguem com suas discussões
Suas distinções
Vaidades
E interesses científicos.

E se reconhecem
Se criticam
Discutem até.

E há progressistas
E pessoas inteligentes
E bem intencionadas

Mas depois dançamos salsa
E tomamos vinho
E a burguesia de Bogotá se lambuza
E se embriaga numa boate de cinco andares
Chamada Carne de Vaca.

E as carnes de fato são todas muito lindas
Elegantes
Bailamos
Enquanto na noite fria
Esgueiram-se em plantações de cocaína
Guerrilheiros e camponeses
Paramilitares
Índios e negros.

Que pensar da democracia liberal e representativa diante disso?

Robinson sugere que seja um Estado fraco
O problema da Colômbia
Causado por um movimentos político
Que se desenrolou
Naquilo que hoje é história.

E o auditório bate palmas
Diante do acadêmico
Muito inteligente e sensível
And very entertaining.
...

Depois de 18 horas
Entre aeroporto e avião
Hostel de estudantes
Banheiros coletivos
Degusto os prazeres simples da vida:

Cagar no seu bandeiro limpo e só
Tomar uma ducha quente e forte
Dormir na minha cama.
Não comer a porcaria que se oferece pelo menor preço.
Fumar o meu cigarro em paz.

Bogotá es una ciudad muy guapa
E também são suas mulheres
Tenho pensado que vou para a Colômbia
Não para pegar cocaína
Mas para pegar minha mulher
E dançar uma salsa
Enquanto o mundo se queima
Entre bombas atomicas
E químicas
Entre agrotóxicos
E salmão geneticamente modificado
Entre tempestades
Caindo
Dançando
Suando
Trepando
Morrendo.


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