segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Sonho de inverno

Sonho de inverno

Tenho sonhado que posso voar.
Um sonho constante.
Tenho pensado que sei voar em sonho melhor do que a maioria
Já sei desviar dos ônibus
e dos fios de energia
e os transeuntes já nem se espantam
só invejando minha amostração. 

As vezes tento voar quando estou acordado
mas para minha tristeza 
nunca funciona...

Nessa noite 
minha perambulanças áreas me levaram para Recife
e para minha grande paixão, Marília. 

O coração fica pequenino
por reviver-la em sonho,
mais um vez. 
Tua ternura me é tão imensa
que não caberia nesse poema
como não coube no sonho
e transborda 
a invadir meu livros e meu escritório
minha manhã fria na capital de Minnesota, muitas léguas ao norte 
onde mora 
meu saudoso coração pernambucano. 

Mas tu, Marília,
és de Alagoas, 
nosso pequeno Estado rival. 
Tu se confunde com as praias belas
com o mar de um azul absurdo
cuja beleza agora me aflige
por contraste 
na minha vida entre livros e escritos políticos
estadunidenses
no austero cotidiano de agora.

Tenho vivido em sonho 
e me custa acordar, 
vencer a cama,
desagarrar o baseado aceso
pelo qual me esquivo da vida
pelo qual me transformo na fumaça
que lentamente sobe às camadas mais altas da estratosfera. 

Tenho vivido acordado 
nesse sonho 
a que eu induzo
distraído
isolado
entretido
entre jogos 
um jogo de imagens
falso 
estéril
como a contemporaneidade.

Mas hoje me sinto acordado
ponho o base de lado
respiro a ar frio que invade a janela
me ergo 
ereto
resoluto. 

No mundo exterior
longe dos meus sonhos de você
mora a injustiça e o horror
a ganancia e crueldade
a ignorância e a intolerância.

Na Síria, no Sudão, na Ucrânia
o sangue escorre grosso e velho e escuro 
pelas ruas das cidades e pelos campos. 
Nas grandes favelas do meu país 
ainda se esgueiram traficantes
lutando
morrendo
sambando.

Por todo mundo 
o mundo definha 
morre de sede e de fome.
De justiça 
não se ouve falar.

Literalmente 
caminhamos para o abismo
com as mudanças climáticas cada vez mais inexoráveis.
Enquanto tudo caminha na mais absurda normalidade.

É preciso permanecer acordado
É preciso permanecer sóbrio
mais que sóbrio, 
vigilante
revoltado.

Não é mais o tempo da delicadeza.
Enquanto o corpo definha 
e a saúde escapa,
o amor que é pequeno, 
enquanto a mediocridade mesquinha e cruel
está no poder 
é preciso um samba de guerra
um samba de dor. 

Esse poema 
é um blues para ti
Marília.
Meu terno coração 
deixei nas páginas dos nossos antigos poemas
que narram domingos impossíveis 
em lagos artificiais e patos ridículos 
que só nós realmente entenderemos.

Ainda estou nos teus braços
olhando as nuvem passarem vagarosas,
em paz com o mundo 
entre teus beijos e coxas
e o teu cheiro 
que jamais esquecerei. 

Registro aqui
um canto de esperança
uma esperança de luta
um ensaio de ação no mundo
de acordar
sóbrio
para enfrentar o vento frio do norte que bate em minha janela.

Por que a vida 
Marília
nos já a estamos perdendo 
aos poucos
todo dia. 

Te ofereço esse grão de eternidade
que nessa manhã em meu coração se reflete. 
Estendo minha mão para ti
nesse canto do mundo
a beira do precipício 
para assistirmos a máquina do mundo 
completar sua obra
enquanto vivemos.

"Não digo que a vida é bela
tão pouco me esquivo dela
digo sim." 



1 comentário:

  1. prin, que coisa bela!
    que alegria nesta minha segunda-feira te ler assim... tão longe mas tão perto!
    eu nem sei o que falar... queria apenas estar colada ao teu corpo... te sentindo... apenas.

    é muito amor! seremos eternos príncipe e princesa desse nosso planeta que agora nos aparece em sonhos...
    te amo!
    e a saudade, ah... a saudade...

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