segunda-feira, 7 de janeiro de 2013


Vacas Magras

Uma vaca magra
arrota a lembrança da floresta
E metano sobe
Tornando ainda mais insuportável o calor
Que os humanos sofrem.

Os homens 
Como vacas
Ruminam sonhos
Em seus aparelhos luminosos.

Enquanto isso,
O sistema solar 
gira ao redor da galáxia
Numa velocidade aproximada
De 200 kilometros por segundo
E as pessoas estão sentados em sofás
Achando-se parados.

Dirigem automóveis
Vão ao trabalho
Voltam.

Querem mais dinheiro
Para comprar o carro do ano
E comer naquele restaurante.

Essas pessoas que rumina desejos
Estão alheios ao arroto da vaca
Que gradativamente aumenta
O suor da bunda sentada.
Ruminando desejos e sonhos
Enquanto outros bilhões
Cagam e sonham igual a elas.

Já não se pode tomar banho no rio,
está cheio de merda.

A água é jogada no carro
Para tirar a lama.
Mas kilometros dali 
não tem água para gente beber,
o gado está morrendo
carcaças nas estradas.

Mas as pessoas estão alheias a tudo isso
estãp distraído por luzes brilhantes.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Filosofia política da morte da manga



Ei-la ao alto. 
Resultado promíscuo da alegria da luz e da calma da água.
És o fruto pedurado no galho
Cujo ancestral é a flor.

Eis que a manga em seu ápice de cor
Ergue-se violenta sobre a maré da continuidade.

Desliga-se da vida do galho
Ao qual se prendia
Voa respeitando o cosmo em direção ao chão.
Lá 
onde habitam os vermes 
que eternamente ensaiam a morte 
Desfaz seu doce mel
Sobre o amargo fim.

E a pedra
Essa irmã do vento
Que acompanha silenciosa
O rumor da eternidade
Ela também surge das víceras da polpa.

Esse pensador que se ergue sobre a pedra para pensar a morte da manga
Tenta flutuar suavemente sobre as implicações do esvair-se eterno
e da repetição a morte que é o verme
tenta se afastar dessa morte singular 
e dessa pedra una
para fluir no imenso rio
que simboliza a sucessão da vida.

Esse pensador que tenta fugir
Desesperado 
Do choro das crianças 
E do lamento das senhoras.
Apaixonado pelo segredo do discurso calmo
Das folhas ao vento 
E das águas em queda.
Foge como um romântico tolo
Do calor das guerras 
Das discussões sobre o governo
Do último capricho da arte.

(A arte,
Que se invoca o direito de inventar a alma humana
Está perdida num labirinto de cavernas 
Com projeções e reflexos
Continuamente a lhe aprisionar.)

Ele tem breves momentos de extase
E de sublime contato com os deuses. 
Medita sobre a morte da manga
Sobre sua putrefação
E o alimento dos vermes.

Subitamente
É empurrado por trás
Pois está numa pedra 
No meio do caminho
E as pessoas
Com suas ilusões e desejos
exigem passar.







Idealismo

Um homem de 42 anos
Trabalhador do campo
É acusado injustamente...

Ele chora
Se envergonha  
Não sabe escrever

Tem dez filhos
Não há chuva 



Sua mão é pesada
Mas há no seu olhar
Uma insustentável pureza  
Misturada com desespero

Ele precisa de ajuda 
E eu nada fiz 
A não ser 
Encaminhar o pedido
Para a Máquina burocrática surreal

Como meu mundo é pequeno diante disso
Tenho vivido para sonhar.

Como é possível haver arte
Nesse pais de fome e sangue?

Saia do poema 
E mude o mundo 
Ou morra tentando.