sábado, 5 de janeiro de 2013

Filosofia política da morte da manga



Ei-la ao alto. 
Resultado promíscuo da alegria da luz e da calma da água.
És o fruto pedurado no galho
Cujo ancestral é a flor.

Eis que a manga em seu ápice de cor
Ergue-se violenta sobre a maré da continuidade.

Desliga-se da vida do galho
Ao qual se prendia
Voa respeitando o cosmo em direção ao chão.
Lá 
onde habitam os vermes 
que eternamente ensaiam a morte 
Desfaz seu doce mel
Sobre o amargo fim.

E a pedra
Essa irmã do vento
Que acompanha silenciosa
O rumor da eternidade
Ela também surge das víceras da polpa.

Esse pensador que se ergue sobre a pedra para pensar a morte da manga
Tenta flutuar suavemente sobre as implicações do esvair-se eterno
e da repetição a morte que é o verme
tenta se afastar dessa morte singular 
e dessa pedra una
para fluir no imenso rio
que simboliza a sucessão da vida.

Esse pensador que tenta fugir
Desesperado 
Do choro das crianças 
E do lamento das senhoras.
Apaixonado pelo segredo do discurso calmo
Das folhas ao vento 
E das águas em queda.
Foge como um romântico tolo
Do calor das guerras 
Das discussões sobre o governo
Do último capricho da arte.

(A arte,
Que se invoca o direito de inventar a alma humana
Está perdida num labirinto de cavernas 
Com projeções e reflexos
Continuamente a lhe aprisionar.)

Ele tem breves momentos de extase
E de sublime contato com os deuses. 
Medita sobre a morte da manga
Sobre sua putrefação
E o alimento dos vermes.

Subitamente
É empurrado por trás
Pois está numa pedra 
No meio do caminho
E as pessoas
Com suas ilusões e desejos
exigem passar.





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