Recife
Hell
Sífilis
Hot
City
O que sois que eu me sinta?
O que me desse?
O que me tirais?
Recife
De tantas tardes
Carregadas de sol
Céu azul
Passando sonolentas
Como o rio Capibaribe
Sujo e preguiçoso.
Meu caros amigos
E familiares
terei a maior saudade.
Vocês que foram generosos
E pacientes
Mesmo aguentando o desprazer
Do meu mau humor
da minha implicância
do meu humor ácido e cretino
e outros comportamentos repreensíveis
agradeço
pela paciência
e generosidade.
Recife,
Do Antigo
Onde pairam musgos
Silenciosos
Seculares
Observando a cidade desdobrar-se
No vai e vem
De tantas gentes
Na rua da moeda
Onde Chico
Eternamente toca um maracatu elétrico
E a cacofonia de vários bares
Vitrolas e caras e coroas
Nomes que mudam
Mas sempre os mesmos
Paralelepípedos
Que convivem com loló
E outros crimes
Cães
Moradores de rua.
Recife dos mendigos
Dos meninos
Mulambos
Mulatos
Pirralhos
Maloqueiros
Em que convivem
O carro importado
E a carroça
Puxada por gente
Carregada de lixo.
Recife
Do cheiro característico
Das fossas
Dos canais
Onde a merda
Também passa vagarosa
Inerte
No calor insuportável da avenida Agamenon
Ao meio dia.
Por quantas vezes
Não errei
Impaciente
No transito lento
Em dias de chuva
Quando os canais de nossa miséria
Se revoltaram com força das águas
e transbordaram sobre toda avenida
Fazendo os pedestres conviver com ratos.
Recife
De Santo Amaro
Do Campo do 11
Da João de Barros
Do Entra a pulso
Do Coque.
As ladeiras infinitas
As casas coloridas
Erguendo-se como cogulemos
Sobre as ladeiras e morros
de Casa Amarela
Que todo ano desabam algumas
Sob as chuvas
Do Recife frio.
Mas Recife é uma cidade de mercados
Da Boa Vista
Onde poetas e músicos
Cantam melodias
E a cerveja gelada
Nos corredores apertados das mesas de plástico
Vermelhas ou amarelas
Num fuzuê
De conversas e versos.
Recife dos tempos históricos
De batalhas
E holandeses
E revoltas.
Recife de pensadores
Em sobrados
E caranguejos
Se esgueirando.
Dos Severinos
Vencendo os grandes sertões
Retirantes.
E nobres senhores de terra
Usineiros
Escravos.
Recife dos carnavais de rua
Do Galo da Madrugada
Recife da linda
Olinda
Do Carmo
Da ladeira da misericórdia
Da praça do MAC
Em quantos carnavais
dançamos o mesmo frevo de todo ano
No calor do meio dia
Com a cachaça
E uma multidão
De fantasiados
Máscaras
Caretas
Óculos escuros
Heróis
E ladrões.
O melhor Carnaval do mundo
Em Olinda
Quando no calor dos corpos
Encontram abrigo
No beijo gelado
De uma desconhecida
Bêbada
Assediada por uma multidão de homens
Contando beijos
Querendo foder e beber
Pouca roupa
Muito calor
O latão que sempre está meio quente
A vontade de urinar que não para
Pessoas mijando nas ruas históricas da cidade alta.
Recife
Cidade das contradições
De um bairrismo
De cantar o hino
E levantar bandeira
De Pernambuco
Por onde for
Orgulhoso
Mesmo sendo provinciano
Prepotente
Em geral mal educado
Tolo
Pequena burguesia
Esnobe
Pensa no carro do ano
Smarthphone
Facebook
Está cercado
De lama e caranguejos
O esgoto aflorando enquanto passa o automóvel veloz.
Recife da minha adolescência
Do colégio Vera Cruz
Quando fazíamos nossos professores chorar de desgosto
Onde as cadeiras se amontoaram
E as bolas de papéis que voavam às centenas.
Recife
Que saudade já sinto do teu fedor...
Quantas tardes desperdicei
Vento a sombra andar
Ali na casinha
Do Cac
Centro de Aids e contaminação.
Saudoso Bigode!
Querido Cavanhaque!
Aquela família acolhedora que vendia cerveja aos estudantes
E conviviam com sinucas e pedra
Tráfico e calouros
Cachorros e ônibus passando na avenida.
Saudoso Garagem
Nilson que comeu amigas minhas
Num papelão no chão
Enquanto a madrugada a dentro
Os jovens se entorpeciam
Até que a manhã raiasse
E não tivessem opção
A não ser voltar para casa.
Espinheiro
Graças
Casa Forte
Onde a pequeno burguesia da heróica capital de Pernambuco se
aglomera em prédios bege
Os sobrados são agora salão de festa
Que tocam música de duvidável valor artístico...
Poço da panela
Onde os matos que antes eram pico
Agora são prédios
Ou construção de prédios
Um dos quais se chama
Pasárgada.
Pasárgada era nosso!
Nos o desbravamos!
Junto ou contra maloqueiros
Policiais.
Como é bom lembrar daquelas tardes
Ao sabor das ervas
Vendo o rio passar.
Boa Viagem
Recife
Tubarão
Porto de Suape...
Candeias
Cidade perdida entre a praia
E a cidade.
Jobostão dos Guararapes
Onde se lutou
Onde a pátria nasceu.
Leão do Norte
Impávido colosso
Se orgulhas da maior avenida em linha reta do mundo,
Ou da América latina,
E outros muitos feitos memoráveis.
Como vou sentir falta dos teus buracos
que cai ou esquivei uma centena de vezes
Das quartas no Lesbians
De suas meninas e seus charmes
Da sujeira geral
Do fedor
Do musgo dos prédios históricos
Das igrejas decadentes.
Penso que quero morrer
Em tuas águas imundas
Para que minhas cinzas
Se juntem a podridão
Geral
em que esse povo vive
alegre
Se espremendo no ônibus
E nas ladeiras de Olinda
Suando
Trepando
Sonhando
Vivendo com o que podemos
Querendo sempre um pouco mais.
Vou la para as terras geladas do Minnesota
onde não se joga futebol
Não tem praia
Os lagos são congelados.
Lá estudarei política
Cumprirei ritos e práticas
Poderei ser chamado de doutor
Professor
E ainda receber dinheiro
Dos impostos americanos
Para estudar com tudo pago
Não vai ser tão ruim afinal.
(Meu orientador
Queria que eu tivesse ido para MIT ou Yale
E talvez eu tivesse conseguido
Se eu tivesse me esforçado mais
Estudado mais
Publicado mais
Lido mais
Ter perdido menos tempo em distrações e jogos
Em tarde que se desmancharam
Sob o forte odor
Da brasa
Do mato
Do rio que passa vagaroso
No calor que dá sono
Depois do almoço.
Talvez em outra vida eu pudesse ter sido um acadêmico mais
competitivo...
Eu mesmo não me julgo tão alto
E acho que tive muita sorte
E levei uma vida boa
Da qual não posso reclamar
Uma educação
Da qual não posso reclamar
Uma bolsa paga com dinheiro dos impostos.)
Carrego as contradições que explodem
Numa nuvem de poeira e merda
Como os ventos da minha cidade
Sou atravessados pelas suas palafitas
E cavalos
Pelos seus canais
E sua pequeno burguesia canalha.
Mas sou grato aos amigos
Por terem me dado memórias
Que eu vou apertar ao peito
E deixar nesses versos.
Sou grato à família
Que amo e brigo.
Sou grato aos poucos irmãos
às mulheres que me abrigaram
Me perdoem por tudo.
Enquanto puder
Voltarei
Irei encontrá-los um dia
Num mercado
Numa praia
Na praça no MAC
Em pleno carnaval
Vamos tomar uma gelada.
Escrevo esses versos
E vejo
O que me dais
O que me tirais..
Me comovo com teus prédios bege
Me jogo nos teus canais
Aceito grato teu fedor de mangue
Seu passado escravocrata
Seus canaviais.
Adeus minha cidade querida
Ficam aqui impressas
Minha memórias e saudades
Minha Ode a tu
Recife
Cidade bela.
Ivan Jucá
09 de Agosto de 2013
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