quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Confissões póstumas

Sempre tive medo da morte em vida
E a sede por eternidade
Fez com que os dias ensolarados me devorassem
Deixando apenas versos cheios de calor.

Nunca me prestei ao papel intelectual,
Daquele que sofre com a vaidade do reconhecimento.
Certamente me entreguei ao corpo
E não tive vergonha da minha parte animal.
Mas sempre detestei os tolos
Com suas rotinas medíocres e seus desejos simplórios por luzes que preencham a falta de sentido e o vazio de suas vidas.

Vi os macacos e suas máquinas histéricas
Cruzando a avenida apressados.
Da montanha tive pressentimentos de grandeza
e julguei compreender os homens na sua miséria e fraqueza.
A máquina do mundo me mostrou o tempo
E vi nela toda destruição humana,
Tomei partido dos deuses
E torci pelo fim.

Mas lá em cima era frio
E por isso constantemente refugiei-me nas praças e nos bares.
Fumava meu cigarro com calma,
Saboreando a mágica improbabilidade da existência.

Raras vezes o esplendor da arte
Sacudiu-me das meditações distraídas do andar olhando para baixo,
E percebi o quanto era maravilhoso o brilho do sol na copa das árvores.

Andando à noite chocou-me a miséria, servindo-se do lixo dos abastados.
Ensaiei revoluções sublimes, mas nada mudou,
Ao ponto em que a fome e o assalto à dignidade viraram o pano de fundo do quadro.

No final quase nada me restou
A não ser os amigos com quem dividi o ar
E a enorme paixão que tive pelos versos.

As tardes ensolaradas que me passaram
Roubei em tinta e papel.
Sou agora o mineral da linha
Que corre com o vento sem se machucar.
Os diálogos solitários que travei
Deixou-os ai como herança.

Venha cá, sente-se, vamos tomar uma cerveja gelada!

Sempre que quiser estarei nessa mesa
Aberto como um livro
Falando de coisa como essas.
Falando do tempo,
Como está lindo esse céu azul de hoje!

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