Acordo
num mar absurdo
dependurado no firmamento
sob o escrutínio dos deuses.
No corpo
o despertar de um sonho
de damas em calor
e nobres batalhas.
Já não chove
e as ruas já dão caminho a carros
apresados em alcançar o destino.
Uma criança chora la fora
e a serra trabalha
e operários
a construir mais um edifício.
Enquanto isso
o rio passa preguiçoso
carregando o despejo dos homens
suas carcaças.
Tento em vão entender
o mistério da beleza dos gigantes verdes
que se erguem vivos
por entre as construções brancas
pequeno-burguesas
recifenses.
E pareço estar sonhando ainda
cego
pela luz a invadir a janela
de um verão impossível
imensidão de azul.
Mas volto a sonhar
nos relatos de antigos
que em batalhas
de deuses e heróis
escreveram sua glória
ou vejo os tratados de política
testando conjecturas
com modelos matemáticos infalíveis
e tudo me enche de enjoo
de quem está bêbado
e anseia por acordar
de quem está imerso e preso em sonho
mas consciente
da realidade de tudo isso.
Por prazer
e necessidade
sem questionar
avançamos
marchamos
para o precipício.
Por acaso
tivemos de nascer
sem que sentido nos seja dado.
(Piso na formiga
que segue a trilha aberta por outras
ela se contorce sobre a dor
e desespero)
Esquivo
da companhia do rebanho
que segue moral, costume e lei
como uma verdade imutável
convencidos.
E fui à grande solidão
da minha janela
por falta de estepes geladas
mas lá só havia com que se sonhar
e nada de real
ou de se estar acordado.
Como nunca quis nada
deixei que me rendessem
como um louco
vociferando no bar
as verdade que não devem ser ditas
ou então me calo
e encaro o silencio
resignado com a embriaguez
e as pessoas de boa sociedade
de bom grado me ignoram
continuam seus afazeres.
Que conclusão pode levar
uma vida ditada a tal sorte?
Um canto solitário
apreciado pelo silencio
um grito desesperado
numa época de loucura regular
um poema para acordar
quando o despertar é um sonho impossível
um sussurro incoerente
de não saber o que fazer com tal vida
feita para sonhadores
um verso para acordar.
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